sexta-feira, 15 de julho de 2011

Verdes são os campos



Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luis Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luis Vaz de Camões

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Inveja



Inveja de quê?
De quem?
De onde?
Eu não assim
Eu sou superior a isso
Eu sou amável
Mas não invejosa.
Para que ter inveja?
Não nos enriquece nem empobrece
Não nos trás bem apenas
Inveja é uma palavra … “simples”?
Não sei se é se não
Porque essa palavra não me cabe no coração

Beatriz Pires

A Vida



Tu és mais que os meus olhos
És a minha Vida
Que me faz seguir sem fechar os olhos
E abrir portas á solidão
Eu sinto-te aqui
Mas não me tocas, não me vês
Apenas me falas
Dizendo que Amor não é apenas
Ajuda, Paixão
É sim sentimento é sim dor
É sim coragem de enfrenta
As setas que nos atingem no coração
As lágrimas também escorrem
Sinto um aperto lá no fundo
És tu chorando, gritando, agradecendo
O Amor que nunca te dei
Tu és forte eu sou fraca
Tu tens coragem de enfrentar
As Chamas lá no fundo que nunca vão acabar
Há Amor, Paixão, Dor e Sentimento
Essa é a minha vida
A tua é apenas uns Olhos sem Visão
Uma dor no Coração
Que esconde a Vergonha e a Paixão!   

Beatriz Pires

O Amor


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..


Autopsicografia



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Mar Português



Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. 



Fernando Pessoa